Cada vez que
me olho no espelho, vejo o que sou de verdade. Um cara covarde que não tem
coragem de assumir o que é, e o que sente. Sempre fui muito reservado,
introvertido e até bastante agressivo, além de covarde. Não sei do que preciso
para me libertar dessa covardia. Dizer aos quatro ventos que gosto de beijar
garotos? Fora de cogitação, pois a família perfeita que minha mãe tanto presa e
o filho machão e pegador que meu pai tem tanto orgulho, estariam a ponto de
desaparecer e eles se decepcionariam tanto que nem sei como reagiriam.
Arrumo a
gola da camisa polo branca de listras vermelhas, passo um pouco de gel no
cabelo. Encaixo a fivela do cinto na calça jeans escura. Calço os tênis e
pronto, sigo para festa na casa dos gêmeos mais sacanas desse mundo.
Desço as
escadas de casa e ando até a garagem, mas ao passar pelo corredor ouço vozes
vindas da sala de estar. Meus pais estão conversando calorosamente, ou pior,
estão brigando. Fico com o ouvido encostado na porta da sala e sinto o ódio me
tomar por completo. Traição para mim, é a pior coisa que existe. Todas as ações
são passíveis de perdão, mas a traição, não. Para mim, não.
— Como você
pode, Armando? Eu te amei durante todos esses anos... — diz minha mãe com a voz
embargada.
— Isso não
vai mais acontecer, Angie, eu juro. Foi...foi um deslize, não é para tanto.
— Ah, tá
bom! Então, agora você é um adolescente irresponsável que comete deslizes. Você
é um idiota, papai — digo entrando de supetão na sala e surpreendendo os dois.
Meu pai fica
tão furioso que se aproxima de mim com “sangue nos olhos”, ele bufa e me segura
pelo braço, jogando-me para fora da sala.
— Não é da
sua conta, moleque. Este assunto não te diz respeito.
— Idiota! —
grito na sua cara.
Ele não
hesita e roda a mão no meu rosto. Desequilibro um pouco, mas me seguro no
aparador de madeira escura que fica próximo à entrada da sala de estar.
— Não,
Armando — grita minha mãe vindo me amparar.
Meu pai,
nervoso, passa as mãos nos cabelos grisalhos e anda de um lado para o outro.
Ele para na minha frente e diz:
—
Desculpa... — respira fundo e volta para dentro da sala de estar trancando a
porta.
— Mãe,
promete que não vai deixar esse idiota te machucar?
Ela chora e
me abraça.
— Mãe —
abraço ela com força.
Ela chora e
tento acalma-la. Olho no relógio e já está passando do horário que marquei com
os caras, mas que se dane. Minha mãe vem em primeiro lugar. Segurando-a pelos
ombros, a conduzo para a biblioteca. Tranco a porta atrás de nós e sento no
sofá marrom de couro, ela apoia a cabeça em meu ombro e continua a chorar.
Desde que me entendo por gente, nunca vi minha mãe tão fragilizada como agora.
Tem horas que a pessoa não aguenta mais segurar o que sente e acaba explodindo,
em lágrimas, ou em xingamentos, ou até em agressões físicas. Ela explodiu em
lágrimas e está inconsolável.
Ouço batidas
na porta e grito:
— Vá embora,
pai. Não queremos te ver.
— Sou eu,
Amanda. Abre a porta, Diego, por favor.
Levanto-me e
abro a porta, minha irmã entra. Ela me abraça e vê a mamãe chorando com a
cabeça enterrada no sofá. Parece que veio do trabalho, ele conta que estava
subindo os degraus da entrada quando ouviu nossos gritos. Agradeço por ela ter
chegado bem na hora.
— Mana, fica
com ela, por favor. Eu preciso sair e — olho bem nos olhos castanhos de Amanda
— se acontecer alguma coisa, não hesite em me ligar. Chego aqui em um minuto.
Ela faz que
sim com a cabeça e se aproxima da mamãe. Ajoelho-me diante das duas e aviso:
— Eu vou
sair, tem uma festa na casa dos gêmeos, mas não quero deixar a senhora assim...
— Pode ir
meu filho — diz enxugando as lágrimas. — Vou ficar bem. Já passei por isso
antes.
— Mas, mãe...
Ela me
interrompe beijando a minha testa.
— Pode ir
tranquilo, sua irmã me fará companhia — abraça Amanda.
Eu abraço as
duas antes de sair. Passo pela porta da sala de estar e ouço uma música erudita
no último volume. Penso em abrir a porta, olhar na cara do meu pai e manda-lo
para a puta que o pariu, mas não, não posso perder as estribeiras com a minha mãe
chorando do outro lado. Saio de uma vez e sigo direto para a festa na casa dos
gêmeos.
####
Paro a BMW
na entrada do casarão dos gêmeos. Quando vou abrir a porta, o Luís aparece com
uma lata de cerveja em cada mão. Ele me abraça e me dá uma das latas dizendo
que essa é só para começar. Seguimos pelo hall do casarão até parar na sala de
jogos que fica atrás das escadas. O lugar é espaçoso e está cheio de garotas,
uma parte são prostitutas que o Luís contratou. Tem algumas meninas da
faculdade, aquelas que se matam para estar em uma festa como essa, pois somos
os “lobos” daquele lugar, os mais populares e, às vezes, os mais idiotas. Quer
dizer, quase sempre
Perto da
mesa de bilhar, o Lucas está agarrado a duas morenas com os peitos de fora.
Elas derramam tequila entre os peitos e como um “cachorrinho” Lucas lambe o
líquido que escorre pela pele delas. Ele passa a língua e depois pede mais.
Cumprimento
alguns alunos que eu não conheço, mas sei que estudam na faculdade de saúde,
pois todos me olham como se tivessem me visto antes e me cumprimentam
amigavelmente.
A festa está
“bombando” e todos bebem, beijam, dançam sem pudor. Ninguém aqui está
preocupado com nada. Amanhã tem aula, mas quem se importa? Todos estão se
lixando em ter que acordar cedo no outro dia, ressacados e com a cabeça
explodindo depois de beberem todas. Tomo um gole da minha cerveja, que ainda
está gelada e pergunto ao Luís se ele viu o Joseph.
— Ele deve
estar lá em cima — diz perto do meu ouvido. — Eu o vi subindo com uma galera.
Nos
entreolhamos. Eu saco o que ele quer dizer. Luís sabe que gosto de muita
putaria, e se for uma orgia, melhor ainda. Subo a escada do casarão e sigo para
direita, paro na terceira porta, que o Luís me indicou onde estaria o Joseph e
as outras pessoas.
Bato de leve
na porta e depois abro bem devagar pondo o rosto na fresta. Visualizo uma
imagem bem peculiar. Joseph não está na cama, mas Kauã sim, e com duas garotas
e dois caras.
Dois caras?
Todas as
orgias que participei com eles, foram com mais mulheres e de homens só nos
cinco. Não conheço esses caras. Uma das meninas e um dos caras se levantam e
andam até o banheiro, a menina diz que vai chamar o Joseph, e o cara volta
vestindo uma cueca samba canção dizendo que vai pegar mais bebida. Ele é tão
alto quanto o Joseph, tem cabelos pretos e curtos. Ele para na porta e me vê, cumprimenta-me
batendo de leve no meu ombro e depois sai do quarto. Fico parado olhando a
cena, um emaranhado de mãos, pé e pernas parcialmente cobertos por um lençol
branco. Minutos depois o cara que saiu, volta e me olha de cima para baixo
dizendo:
— Se quiser
participar, pode ir tirando a roupa. — Ele sorri malicioso e sai.
O Kauã se levanta da cama, que é uma cama
enorme, acho que dá três da minha, e se aproxima de mim. Ele está nu, com o pau
duro e balançando enquanto anda.
Que visão do
inferno!
— Irmão,
chegou bem na hora — sorri de lado e ele tenta me abraçar, mas eu o afasto.
Percebo que
o cara que ficou no quarto está se mexendo na cama. Ele desenterrar a cabeça
dos travesseiros e eu levo um susto tão grande, que dou um passo para trás. O
almofadinha fortão, o engomadinho de topete loiro que foi palestrar na
faculdade ontem, o tal do Enrico está deitado na cama completamente nu. Sua
bunda é enorme, as coxas são grossas. Ele se vira e vejo o seu abdômen
trincado, dividido e o peitoral é... fascinante. E tem pelinhos, aqueles bem
ralinhos por todo o peito.
A pintura de
um Deus grego.
Seus olhos
estão estreitos, deve ter acordado agora. Aliás, todos parecem que acordaram
agora, e nem é madrugada, ainda. Ele boceja e balança a cabeça para despertar,
me encara e diz:
— Você?!
— Eu que
pergunto, você?
Ele se apoia
sobre os travesseiros, seu pau não está completamente duro, nem mole e é bem
avantajado. Recosta a cabeça na cabeceira da cama, dobra a perna esquerda e
coloca o cotovelo em cima do joelho dobrado.
— Veio
participar da brincadeira? — pergunta com uma voz rouca.
— Não mais —
viro de costas e saio do quarto.
Noto estar
sendo seguido. É o Kauã, que se enrolou num lençol para me seguir pelo corredor
do andar de cima do casarão.
— Mano, qual
é? É putaria e sei que você gosta. Porra, volta aqui.
Paro antes
de descer o primeiro degrau da escada, me viro para encarar Kauã.
— Gosto da
putaria com vocês, meus Brothers, não com um estranho — começo a descer e o
Kauã me segue.
— O Enrico
não é estranho, ele é famoso, o cara da internet e aceitou participar. Ele é
muito gente boa
— Porra,
Kauã! Gente boa? — grito parando de descer os degraus. — Tem outro cara na cama
além dele. O que é isso? Duas garotas e quatro machos. Tem alguém pegando na
mangueira de alguém e tenho certeza que não são as garotas.
Volto a descer
a escada e ele vem em meu encalço. Começa a tagarelar dizendo que não é anda
disso que estou pensando.
— Ah, não? E
o que seria?
— É uma
orgia e vale tudo nessa hora.
— Ser
enrabado por outro cara não vale para mim.
— Seu
hipócrita — diz tocando no meu ombro. — Todos sabemos que você era apaixonado
pelo Alex. Todos aqui sabem que você foi até o litoral, pagando de machão com
uma mulher do lado, quando na verdade você foi tentar alguma coisa com um
loirinho bonitinho. Mas deu com a cara na porta, ou melhor, com a cara no punho
do namorado do dele — grita cada palavra.
Viro para
olha-lo de frente, e antes de sair, dou um forte soco no meio de seu queixo.
Ele cai e as pessoas que estavam na festa vem ajuda-lo a levantar. Luís se
aproxima e me afasta dele. Neste momento Joseph aparece e bem rápido se
aproximar do Kauã que está caído no chão.
— Que merda,
Diego! Tá maluco, porra? — grita Luís na minha frente, me segurando.
— Quem esse
viado do caralho pensa que é para falar essas merdas para mim, hein? — digo
indo para cima do Kauã, mas Luís me segura.
Joseph se
levanta, me encara. Seu olhar tem tanta raiva que posso sentir minha pele senso
perfurada. Agora entendo o porquê do nosso apelido ser “os lobos”. Joseph
parece um lobo preste a abater sua presa. Ele é tão largo quanto um armário. Ele
empurra Luís e segura-me pela camisa arrastando-me até a porta. Joseph me joga
no chão e diz enraivecido:
— Só não te
soco com vontade, porque vou me arrepender depois — aponta para rua. — Agora
vai embora e não estraga nossa festa.
De toalha e
limpado um filete de sangue, Kauã aparece na porta junto com o Luís. Joseph se
aproxima do Kauã, e ao abraça por trás como um urso, e beija sua bochecha. Não
é beijo de amigos, e esse abraço mostra que eles são bem mais que isso.
— Que nojo —
digo cuspindo o chão e me erguendo.
— Cara!
Vocês se pegam? — diz Luís impressionado.
Eles se
entreolham com cumplicidade. Vejo nas expressões deles que estão dispostos a
assumir o que eu já desconfiava. E lá no fundo, bem lá no fundo, tenho inveja
deles, da coragem deles.
— Somos
namorados e daí? Tem algum problema, mano? — diz Joseph encarando o Luís.
— Por mim —
Luís levanta as mãos. — Tudo bem. Vocês são maiores de idade e não tem problema
para mim. Para você — aponta para mim. — Vê problema em nossos amigos se
pegarem?
— Vocês são
umas bichas ridículas — dou meia volta e ando até o meu carro.
Saio daquela
festa, com a raiva me consumindo. Não é só a raiva pelo que aconteceu que me
deixa com a cabeça quente, também tem o lance com meus pais, a minha covardia e
a sensação de lembrar de um fato que aconteceu a mais de um ano. Toda essa
mistura de acontecimentos e lembranças me deixa com o sangue fervendo de raiva,
preocupação e ódio. Ódio da vida, de tudo e de todos.
— Que se
fodam! — viro a chave na ignição e sigo sem rumo.
Não quero
voltar para casa e ter que lidar com a tensão que está naquele lugar. Nem muito
menos quero voltar para festa, pedir desculpas para os meus amigos e seguir
como se nada tivesse acontecido, não mesmo. Ainda não consigo compreender como
dois dos meus melhores amigos, são gays, se pegam e nunca me contaram. Sempre
fomos amigos de muitos anos. Dividimos as garotas, nós três antes dos gêmeos se
juntarem a nós. Apesar que sempre desconfiei depois de um tempo que os dois
andavam juntos demais, sempre fazendo coisas juntos. E agora a confirmação,
eles são namorados. Sinto que fui
apunhalado pelas costas.

Uau. Intrigas e indecisões. Gostei!
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