Prólogo
Chove forte,
o céu está cinza e os pingos pesados batem na janela do meu quarto com tanta
força que chego a me assustar. Escondo-me debaixo das cobertas com medo dos
trovões e relâmpagos. Sempre tive medo deles, só que nunca disse a ninguém,
esse é um dos segredos que mantenho escondido. Muita coisa sobre mim, não conto
a ninguém, exceto para minha irmã mais velha. Tapo os ouvidos para não ouvir os
estrondos vindos do céu. Quando chove assim, sempre acho que o mundo cairá
sobre minha cabeça, literalmente. Viro-me de lado e encolhido, fico em posição
fetal, sinto-me melhor assim.
Desde que
voltei do litoral, estava bêbado e surrado, não consegui esquecer o Alex com
aquele outro cara. Eles estavam se beijando, de mãos dadas, trocando carícias e
isso me irritou profundamente. O Alex sempre foi a pedra no meu sapato. Ele
sempre foi o cara que eu queria manter longe, para que o sentimento que tenho
por ele não se manifestasse. Mas, é impossível ficar inerte diante do que
sinto.
Passei anos
da minha vida reprimindo, escondendo a atração que sinto por outros garotos.
Escondo meus desejos do mesmo jeito que me escondo dos trovões. Minha família
nunca aceitaria, nem compreenderia essa situação. Quando criança, fui a vários
psicólogos, pois eu era uma criança muito agressiva. Lembro-me de uma vez, que
um garoto que estudava na mesma classe que eu, segurou no meu pinto dentro do
banheiro e eu lhe dei um empurrão que ele bateu a cabeça no chão. Foi a maior
choradeira, fiquei de castigo e ainda levei suspensão. Eu senti algo diferente
naquele momento, mas de tanto ouvir que era errado, decidi encarar como algo
errado. Desde então, os picos de agressividade foram crescendo e o
relacionamento com as outras pessoas foi piorando, mas mesmo assim consegui
terminar os estudos e ir para uma faculdade.
Outro trovão
seguido de um relâmpago, e me encolho ainda mais na cama, choro como se
estivesse levando uma surra, mas a paulada é do destino e da vida que estão
sendo injustos em me deixar sentir isso por outro homem, isso não é normal. Eu
não sou normal.
Todas as
namoradas que tive, foram usadas, descartadas depois da transa. Sou questionado
porque nunca pego firme com nenhuma delas. Para meu pai, a desculpa que sou
jovem e devo aproveitar enquanto posso fazer sexo sem compromisso, que sou seu
orgulho por ser o macho alfa da minha roda de amigos. Para minha mãe, deve ser
o meu jeito esquentado que assusta as garotas. Mal sabem eles, o que sinto de
verdade.
O meu pai
não reagiria bem, em saber que seu filho de vinte e dois anos, garanhão da
turma de medicina, tem medo de trovão e está encolhido que nem uma mulherzinha
donzela e medrosa debaixo das cobertas. E o que ele faria se soubesse o que
falei para o Alex e para o namorado dele lá no litoral, com certeza me
deserdaria.
“Eu vou ficar com você. Quando eu voltar para cidade vou me
assumir para minha família e ficar com você”
“ Sou
apaixonado por você, Alex”
Lembro-me
das palavras que disse, da dor que senti ao levar um soco do namorado do Alex,
estava bêbado, portanto, não posso levar em consideração o que falei e o que
fiz. Olho no meu relógio de pulso, e já são quatro da tarde. Uma tarde
tempestuosa assim como minha cabeça e meu coração. Com o barulho dos trovões,
tapo os ouvidos, fecho os olhos com medo e acabo adormecendo
####
Uma dor fina
na nuca me impede de levantar a cabeça de uma vez. Abro os olhos com
dificuldade e vejo tudo embaçado. Estou deitado de lado. Feixes de luz entram
pelas janelas do meu quarto. Esfrego os olhos para ver com clareza e quando
estico as pernas na cama sinto que bati em algo. Ergo o olhar e visualizo minha
mãe sentada na ponta da cama. Ela toca minha perna por cima do edredom e diz:
— Filho, o
jantar já está pronto.
Seu tom é
tranquilo, do que jeito que ela sempre usa para me convencer de algo, mas não
quero levantar da cama. Estou com vergonha de ter chegado tão bêbado e
enfurecido.
— A quanto
tempo está aí? — bocejo.
— Tempo o
bastante para perceber que você não está bem. Agora levanta e vamos jantar —
bate na minha perna.
— Não estou
como fome, mãe — digo cobrindo meu rosto com o edredom.
Na verdade,
eu não quero ver ninguém nem ouvir lições de moral. Só de pensar no sermão
hipócrita dos meus pais, fico enjoado.
— Diego,
você chegou completamente...
— Bêbado. Eu
sei disso. — Minha voz sai rouca de sono.
Ela respira
fundo e bate, devagar, na minha perna.
— Vou pedir
para cozinheira trazer seu jantar aqui...
— Eu não
quero comer. Me deixa em paz, que droga! — digo com o rosto coberto.
Desistindo
de me convencer a ir jantar, minha mãe sai do meu quarto, ela parece chateada. Não
estou com saco para sermão, jantar em família, ou qualquer outra atividade
sociável. Estou cansado de tudo. Só queria poder voltar ao passado e apagar
tudo que fiz e falei lá no litoral. Esquecer que me declarei para o Alex, que
levei um soco do namorado troglodita dele. Em hipótese alguma meus pais podem
descobrir que me declarei para outro macho, isso seria o fim para eles e...
para mim.
Vagarosamente
coloco minhas pernas para fora da cama. Apoio-me nos braços e com uma morbidez
sinistra me sento na cama. Estico os braços para afastar a preguiça e um gosto
amargo sobe até a boca. Estou de ressaca. Depois de alguns segundos reunindo
forças ficando de pé, ando até o banheiro do meu quarto.
Diante do
espelho, me vejo como realmente sou. Não o Diego bonitão, garanhão e líder da
matilha de “lobos predadores” da faculdade de saúde, não vejo esse. O que vejo
é um covarde, beberrão, que se declarou para outro homem e não tem coragem de
assumir o que sente nem o que é de verdade, é esse o Diego que vejo no reflexo
do espelho do banheiro. E sinto muita vontade de esmurrar a cara desse Diego.
— Lobo
predador. Humpf! Essa é boa! — digo
olhando no espelho.
Esse apelido
foi dado por algumas garotas da faculdade, as mais populares. Acabou pegando e
virando nossa identificação. Somos em cinco, e me nomearam líder da “matilha”.
— Talvez se
eu fosse um lobo de verdade, tivesse mais coragem.
Entro no box
e ligo o chuveiro. Um banho vai ajudar a curar a ressaca miserável que sinto.
Seria um milagre que essa mesma água levasse consigo a maldita atração que
sinto por outros homens.
Capítulo
1
1 ano depois
Salto do carro, coloco os óculos escuro,
estilo aviador, e meus amigos se aproximam de mim. Formamos nossa “rodinha”.
Cumprimento a todos e começamos a inspecionar as garotas que passam. Loiras,
ruivas, negras, baixinhas, gordas, todas sem exceção passam por nossos olhares.
Já experimentei um pouco de todas, e isso é a maior prova que gosto de mulher.
O incidente na praia, com o Alex foi devido ao álcool que estava em alta na
minha corrente sanguínea. Balanço a cabeça rapidamente para esquecer do que
aconteceu a um ano atrás.
Minha turma,
ou melhor, a “matilha” é composta pelos meus melhores amigos. Joseph Barcellos,
Kauã Carvalho, e os gêmeos Luís e Lucas Alcântara Machado. Temos a mesma faixa
etária, entre vinte e um, vinte e três anos. Joseph é o mais caladão de nós.
Ele tem cabelos loiros, longos, passando dos ombros. Não faz o tipo fortão, mas
é largo e tem um corpo na medida que as garotas gostam. Ele tira boas notas,
nunca falta as aulas e pretende ser um grande cirurgião plástico, assim como
seu pai que é um dos mais famosos do país. Em nossas saídas, noitadas e baladas
ele é único que fica sozinho, mas sua relação com o Kauã é de uma cumplicidade
extrema, os dois sempre saem juntos depois da balada...as poucas vezes que saem
sem todos da turma estarem perto. Uma
vez, depois de beber todas, marcamos uma orgia na casa dos gêmeos Luís e Lucas,
e foi sensacional, mas o Kauã e o Joseph não ficaram para a putaria que rolou solta
na festa. Eles simplesmente foram embora, alegando que o Kauã não estava bem e
precisava voltar para casa. Achei estranho, mas nunca comentei nada.
O Kauã, é o
mais engraçado, gosta de fazer piada com tudo. E todas suas brincadeiras são de
péssimo gosto. Até eu que sou meio bagunceiro, fico cansando das bobagens do
Kauã. Só que, de uns tempos para cá, ele parou mais com essas brincadeiras e
passou o posto para o Lucas. O cara faz a linha mauricinho, com cabelos
cortados e sorriso perfeito. Ele quer ser oncologista, pois perdeu sua mãe para
um câncer de mama a três anos atrás, então decidiu estudar essa especialidade
para ajudar outras pessoas.
Os gêmeos
Luís e Lucas são parecidos em quase tudo, só não no gosto por músicas. Luís
gosta de rock e Lucas de pop. Eles usam o mesmo corte de cabelo, raspado dos
lados e liso na parte de cima. Luís tem tatuagem nos braços e parece um lutador
de MMA mal-encarado. Mas no fundo, é uma boa pessoa. Lucas faz a linha mais
calminho, mas é tão brincalhão quanto o Kauã. Os dois tem o mesmo porte físico
e querem ser pediatras, pois Luís que namora com minha prima Suellen e disse
que se tiverem um filho, algum dia, ele mesmo cuidará da criança como médico e
como pai.
Parece que
tudo está bem com meus amigos, só com eles.
Encostado do
meu lado Lucas diz:
— Como foi com
a morena ontem à noite? — me cutuca com o ombro.
— Normal.
Nada de especial — digo com indiferença.
Não
aconteceu nada de tão extraordinário com a garota que passei a noite de ontem.
Ela era bonita, tinha uns peitões que com certeza eram de silicone, chupava
bem, mas nada além disso.
— Como
assim, normal? — junta as sobrancelhas. — O grande líder dos lobos teve uma
noite normal — diz olhando para os caras.
Todos me
olham espantados parecendo ter ouvido o anuncio do fim do mundo.
— Ah! Qual
é? Não aconteceu nada demais, e daí?
— Você está
doente? — Lucas diz colocando a mão na minha testa.
— Será o zika
vírus? — diz Joseph cruzando os braços.
— Já sei o
que é! — diz Kauã e todos o fitam curiosos. — Você brochou e não quer dizer.
Os caras se
viram para mim com olhos arregalados.
— Ah! Vão se
foder, seus viados do caralho! — saio andando até a porta da faculdade,
atravesso as catracas e sigo direto para a sala.
Eles me
seguem sorrido, ou melhor, gargalhando como se tivessem escutado a piada do
século. Viro-me para vê-los e estreito o olhar para cada um. Eles param de
gargalhar e erguem as mãos em sinal de rendição. Entramos na sala e ocupamos os
lugares no meio. A sala não está muito cheia e o professor não havia chegado,
ainda. Então me viro para os quatro palermas e digo:
— No dia que
eu brochar com alguma garota — aponto para cada um deles — podem cortar meu pau
fora, pois prefiro não ter nenhum a ter um com defeito.
— Sim
senhor! — dizem em uníssono.
Voltamos
nossa atenção para o professor que acaba de entrar na sala. Retiro meus livros
da bolsa e abro na página que ele indica. Os caras me olham estranhamente, pois
sabem que não gosto muito da aula de hoje, mas preciso fazer algo certo pelo
menos nos estudos. Largo o livro em cima da carteira e os encaro com a cara
fechada. Eles entendem o recado de que não quero mais continuar com o assunto e
cada uma se vira para o professor.
####
Nas mesas
que ficam do lado de fora do refeitório, espero os caras chegarem para decidir
sobre a programação de estudos, pois teremos uma semana, que será a próxima, de
provas na faculdade. É o meu sonho ser médico, sempre tive essa vontade de
ajudar as pessoas e cuidar da saúde delas. Meu pai queria que eu fosse advogado
como ele, mas prefiro ajudar as pessoas de outra maneira. Retiro os cadernos da bolsa e passo a limpo
todas as observações que o professor deu na aula de hoje, administração hospitalar
é uma coisa muita chata de se estudar, essa parte burocrática não me enche os
olhos.
Os primeiros
a se juntarem a mim, são os gêmeos. Lucas vem segurando um sanduíche na mão
direita e na esquerda um copo de milk-shake. Eles se sentam, um de cada lado
bem na minha frente.
— Então,
cara! Conta para gente o que aconteceu com a felina que você pegou ontem — diz
Lucas depois de morder um pedaço do seu sanduíche.
— Já te
disseram que é feio falar com a boca cheia — arqueio a sobrancelha. — É
nojento! Sua boca parece uma máquina de lavar. Vejo a comida girando.
Ele passa o
guardanapo para limpar a boca, e depois de engolir o que mastigava, diz:
— E você
nunca falou de boca cheia? Ah, tá! Falou o senhor certinho. — Ele se acomoda na
cadeira e diz: — Agora, falando sério, mano. Você brochou?
Largo a
caneta em cima do caderno, cruzo os braços e encaro o Lucas. Ele é bonitão, os
dois são, mas o Lucas veio com um defeito que o irmão gêmeo dele tem em pouca
quantidade, a idiotice.
— Cara!
Quantas vezes vou dizer que esse assunto já deu?
— Tá bom!
Foi mal, irmão — diz antes de beber um pouco do milk-shake.
— Meu gêmeo
manja da arte de ser inconveniente. Né irmãozinho? — diz Luís batendo de leve
no ombro do irmão.
Os dois
ficam se provocando, e tem horas que parecem duas crianças altamente
desenvolvidas só fisicamente, porque de cérebro... Tenho algumas dúvidas sobre
o que tem dentro do crânio deles.
De onde
estou sentado, observo uma movimentação de umas garotas, para o lado da entrada
da faculdade, um burburinho. As meninas estão eufóricas e de longe vejo um
topete loiro na cabeça de um cara que mais parece o Superman em termos de corpo. As meninas tiram foto dele e com ele.
Posam para selfies e o cara não se
incomoda com o assédio. Com certeza deve ser alguma sub-celebridade da internet
que veio visitar a faculdade e foi reconhecido pelas garotas daqui.
O Joseph se
aproxima da nossa mesa, se senta ao meu lado e cutucando meu ombro, pergunta:
— Qual é a
do mané bombado? — diz apontando para
a rodinha que as meninas fizeram em volta do cara de topete.
— Sei lá! E
quer saber? Isso não me interessa — me viro para olhar os cadernos na mesa. —
Vamos estudar que é o melhor que a gente faz — digo emburrado.
— Tá azedo
para caralho hoje, hein Diego? Porra — diz Joseph abrindo um livro de anatomia.
— Só não tô
para conversa mole.
Os caras
ficam em silêncio e começamos a focar nos estudos, mas não consigo não para de
olhar, de soslaio, para o cara que roubou a atenção de quase todas as garotas
da faculdade, e roubou a minha também. Ele se aproxima, e passa bem do lado da
mesa onde estou seguindo direto para o refeitório. Dez minutos depois ele volta
e procurar um lugar para sentar, segura nas mãos um sanduiche e um copo grande
suco. Joseph me cutuca e diz quase sussurrando:
— Chama ele
para sentar aqui.
Arregalo os
olhos e encaro Joseph.
— Não quero
papo com esse mané...
Antes que eu
dissesse mais alguma coisa, o Joseph chama o cara de topete loiro para sentar
na nossa mesa. E ele acaba de infringir uma de nossas regras: nunca se misturar
com estranhos babacas. E esse cara tem jeito de babaca.
— Oh mano! —
diz Joseph bem alto para que o cara escute. — Tem um lugar vazio aqui, chega
mais.
Não sei de
onde saiu tanta simpatia do Joseph, e ainda acho estranho o Kauã, seu cão de
guarda, não está colado na barra de sua calça. Olho de lado querendo arrancar a
cabeça do Joseph com uma serra elétrica.
— Ah! Qual
é? Deixa o cara se enturmar. Somos os mais populares nessa bosta de faculdade,
o que custa ajudar um novato, se é que ele veio estudar aqui.
O cara que
chamou a atenção de todos no campus, se aproxima e não deixo de notar cada
detalhe dele. Ele sorri, e seus olhos azuis se estreitaram formando ruguinhas,
um lindo sorriso. Seu cabelo é curto, quase raspado, e tem um topete loiro
jogado para o lado direito. Nariz afilado, bem desenhado, que faz seu rosto
marcante ficar ainda mais bonito. Os músculos dos seus braços e pernas ficam
marcados pela sua roupa social. Uma camisa de mangas compridas branca com
listras pretas e uma calça cinza. Ele tem ombros largos, grandes e pela
marcação de suas coxas, que são enormes, posso afirmar que esse cara pega
pesado na academia.
Ele se
apresenta:
— Me chamo
Enrico — coloca o lanche sobre a mesa e estende a mão para nos cumprimentar.
Os caras
fazem a linha educados, coisa que nunca são, para o novato com pinta de modelo
fitness e o cumprimentam com um sorriso falso. Mas, o Joseph olha o tal do
Enrico como se o quisesse... comer.
Não acredito que um dos meus melhores amigos, seja... viado.
— Então,
Enrico, você é novo por aqui? Tá fazendo que curso? — pergunta Lucas.
— Nada,
cara! — ele sorri de lado — Passando para dar uma palestra para os estudantes
de educação física. Uma palestra sobre rotina em academia e comportamento.
Vocês são dessa turma? — diz com um sorriso simpático.
Seguro minha
vontade de manda-lo a merda. Chega todo simpático e nem é aluno da faculdade,
idiota.
— Que legal
cara! — diz Joseph. — Mas, não somos dessa turma. Cursamos medicina.
— Pô,
bacana! — diz o tal do Enrico olhando para gente.
Não sei o
que sinto, é mistura de raiva e tesão. Estou com raiva desse cara porque ele
está me deixando excitado com essa simpatia, com esse sorriso e esse corpo.
Puta merda!
— Por que as
garotas fizeram esse alvoroço todo quando te viram? — diz Luís.
— Deve ser
fogo no rabo — digo entre os dentes.
O Enrico me
olha sem entender o que eu disse.
— O que foi?
Falei mentira? Essas meninas não podem ver macho que ficam tudo se oferecendo.
— Calma ai,
fera! Estamos conversando na boa. — Enrico toca no meu ombro e eu me esquivo.
Não quero
ser tocado por um desconhecido, e não gosto que toquem em mim enquanto
conversam.
— Deixa esse
azedo para lá, Enrico. Conta aí, por que o alvoroço das meninas? — diz Joseph.
Ele começa
contando que voltou de viajem da Europa para morar de vez na cidade. Bebe um
pouco do seu suco e continua:
— Eu sou
personal trainer, bem, um amante da vida saudável — diz sorrindo.
Porra! Para que ficar sorrindo assim?
— Olha só! —
grita Kauã, que se aproxima da mesa. — Enrico German, o cara mais famoso da
internet. Cara, eu vejo todos os seus vídeos e te sigo nas redes sociais.
Encaramos o
Kauã, que apareceu não sei de onde, sem entender como ele conhecia esse tal de
Enrico e nós não.
— Como assim,
você conhece esse cara e eu não? — diz Joseph de um jeito estranho, parece estar
enciumado.
Kauã se
senta ao lado do Enrico e o cumprimenta com muita amabilidade.
— Mano, esse
cara aqui — aponta para o Enrico com polegar. — É um dos maiores personal trainers
da internet. Os vídeos dele são incríveis, dicas maravilhosas para quem
frequenta a academia. Milhões de visualizações. Vocês precisam ver. — Kauã se
vira para o Enrico e diz: — Acabei de saber que você vai dar uma palestra para
turma de educação física, posso assistir?
— Claro que
pode, cara, vai ser legal ter você lá — aperta o ombro do Kauã. — Aliás, todos
vocês estão convidados — diz sorrindo e se levanta depois de tomar quase todo o
suco. — Se me derem licença, preciso ir até a sala para arrumar tudo para a
palestra.
Ele se despede
dos caras com um aperto de mão amigável, e quando vai se despedir de mim nem me
dou ao trabalho de erguer o olhar para falar com ele. Não sou obrigado a ser educado
com almofadinha que paga de bom moço. Ele vendo que não o cumprimentei, encolhe
a mão envergonhado e sai da nossa presença. Os caras me olham como se eu fosse
um ser de outro planeta.
— Qual foi?
Não sou obrigado a ser educado com quem não conheço — digo voltando meu olhar
para os livros.
— Educação
mandou lembrança! — dizem em uníssono.
— Ele deve
ser mesmo geração saudável — diz Lucas pegando o sanduíche que o tal do Enrico deixou.
— Ainda tá quente — abre o lacre e dá uma mordida.
Balanço a
cabeça em negativo e sorrio com o jeito do Lucas. Passado o episódio com o
palestrante boa praça e famoso, voltamos a estudar e aproveitar os últimos
minutos do intervalo.

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