sábado, 4 de março de 2017

Desejo Escondido - Capítulo 05



Passei muito tempo da minha vida escondendo quem sou de verdade. Sozinho, comecei a buscar informação sobre a homossexualidade. Na adolescência, quando os desejos foram ficando mais fortes, uma confusão se instaurava na minha cabeça. Tinha vergonha de conversar com alguém da família, minha mãe morreria se soubesse que único filho homem que ela tem gosta de garotos, meu pai me deserdaria e me chutaria para fora de casa como um cão sem dono. Sempre temi a reação deles. Então, escondi quem eu era.
Fui criado para ser um menino, que gosta de fazer coisas de menino. Como brincar de carrinho, jogar bola, apostar corrida com os outros meninos, soltar pipa, e tudo isso eu fiz. E até gostava, mas também sentia que algo estranho havia comigo. Sempre me senti diferente. Por isso hoje eu digo: “eu não virei gay, só não havia descoberto o que eu era de fato”.
Hoje, três dias depois da conversa que tive com o Joseph na academia, sinto que me aceitar primeiro foi a decisão mais importante que tomei na vida. Durante esses dias remói tudo que passei durante esse tempo, e mesmo começando a me aceitar, ainda tenho medo da reação das pessoas. Vencer esse medo é o próximo passo.
Sentado na grama do campus, perto do refeitório da faculdade, debaixo da sombra de uma mangueira em flor, observo o céu. Está ensolarado, mas não muito quente. Penso nos meus amigos. Lembro do dia da festa na casa dos gêmeos. Os gêmeos aceitaram bem que dois do nosso bando fossem namorados. O Luís se aproveita disso para jogar charme nas garotas que insistem em querer serem aconselhadas pelo Joseph ou pelo Kauã. O Lucas se assustou no primeiro momento, mas depois levou tudo numa boa. E eu tive a pior reação de todas, mas é melhor virar a página.
Por falar neles, os quatro se aproximam de onde estou. Sentam-se formando um círculo.
— Tenho uma novidade — diz Kauã abrindo a bolsa e retirando ingressos. — Vamos ao show da nossa banda favorita.
Todos dizemos de uma vez: Uau!
— Onde conseguiu os ingressos, amor? — diz Joseph agarrando Kauã pelo pescoço.
Os gêmeos olham estranho para os dois e depois para mim, talvez para ver se eu desaprovo a conduta do casal. Não vou mentir, sinto um certo desconforto em vê-los assim, mas como estou tentando ser uma pessoa melhor e me aceitando, preciso também aceitar as pessoas como eu. Sorrio para os gêmeos. Eles entendem que não devem falar nada e desmancham a expressão de estranheza.
— Despedaçados é melhor banda que faz o melhor cover do pop rock, você acha que eu perderia a oportunidade de irmos todos juntos — Kauã aponta para nós. — Esse será o nosso show!
— Nosso show — diz Joseph olhando nos olhos de Kauã e o beija, um selinho.
— Já contou para eles? — Kauã se vira para nós.
— Achei melhor fazermos isso juntos — diz Joseph.
Nos entreolhamos sem entender nada.
— Perdi alguma coisa? — falo com a testa franzida.
Eles respiram fundo e Kauã diz:
— Vamos morar juntos, depois desse fim de semana. Vou me mudar para o apartamento do Joseph.
Isso sim é uma notícia surpreendente. E um passo importante para os dois.
— Que merda! — diz Luís. — Vocês agora são um casal de verdade. Quem diria, meus melhores amigos são gays. — Ele olha para o irmão e diz: — Lucas, não vai me dizer que você...
Lucas se vira para o irmão e arregalando os olhos diz agitando as mãos:
— Tá maluco? Sou homem — olha para mim, para o Kauã e para o Joseph como arrependimento. — Foi mal, aí! Vocês continuam sendo homens, e tal, mas eu não gosto de homem, não sinto desejo por outro homem.... Ah, vocês entenderam.
Sorrimos com o jeito desastrado do Lucas falar. Ele às vezes, é tão espontâneo e sincero quanto o irmão, e maluco também.
— Sabe o que é interessante na nossa amizade? — diz Kauã.
Balançamos a cabeça em negativo.
— Resolvemos nossas diferenças em tempo recorde — ele sorri.
— De fato. Mas, não pense que é tão fácil ver vocês dois tentando viver normalmente — digo lembrando das piadinhas e ofensas que escutamos desde então.
— Isso estamos tirando de letra. Não é fácil, mas vamos conseguir superar isso também — diz Joseph.
— O que fez você tomar a decisão de se mudar para a casa do Joseph? — Lucas fala.
Kauã e Joseph se entreolham e o Kauã responde:
— Meus pais me botaram para fora de casa. Disseram que não aceitavam um filho viado e então o Joseph me convidou para morar com ele — Kauã aperta o queixo de Joseph. — Estudaremos juntos, vai ser legal.
Se algum dia, eu conseguir contar para meus pais que sou gay, serei tratado da mesma forma. E o problema não será só não ter para onde ir, muito sentimento envolvido e a decepção será o pior de encarar.
 Nossa conversa continua com a euforia de todos em ir ao show da banda “Despedaçados”. Será no próximo fim de semana, e uma coisa é certeza, vamos beber muito e curti o melhor som do pop rock da região.
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Depois da aula, dentro do meu carro, escolho um CD qualquer. Por incrível que parece, eu tenho o álbum com a trilha sonora do musical Dreamgirls. Lembro que ganhei esse CD da minha irmã, que me pegou uma vez cantarolando uma das músicas do filme. Sempre escondi a paixão que tenho por musicais. Se meu pai descobrisse que seu filho prefere os musicais da Broadway a pornô hétero, ficaria vermelho de ódio.
Escolho “Steppin’ To The Bad Side”, coloco os ósculos estilo aviador, dou partida no carro e fazendo charme de mafioso sigo para casa. Pensando na vida, revendo algumas coisas que fiz, desejando não ter que fazer mais besteiras daqui para frente, assim eu sigo meu caminho. Bem, é o caminho até a minha casa, mas nesse pequeno espaço de tempo dá para por muita coisa em ordem dentro da cabeça.
Quando estava saindo da sala, pelos corredores da faculdade, dei de cara com o Alex. Já faz um ano desde que ele mudou de horário só para não ter o desprazer de me encontrar. Sou um desprazer ambulante. Ele está certo na decisão. Seu namorado, com certeza, ficaria emputecido de tanto ciúme se soubesse que ainda poderíamos nos esbarrar pelos corredores. O tal Otávio, seria capaz de aparecer aqui só para terminar o serviço que começou lá no litoral, arrancar meus dentes. Olhei para Alex, e ele não desviou, veio falar comigo. Ele se aproximou, ficou parado na minha frente e disse:
— Você está bem, Diego?
Lembro que estava nervoso por vê-lo novamente. Ele continua lindo, mais lindo. Ele sorriu educado depois que perguntou como eu estava. Respondi que estava bem e que minha vida estava entrando nos eixos, tudo mentira. Ele ficou feliz em saber que estou bem, foi o que disse estendendo a mão para me cumprimentar. Despediu-se dizendo que estava atrasado para um seminário que por isso tinha chegado cedo na faculdade. Respirei fundo ao sentir a mão do Alex na minha, e nada mais. Nenhum arrepio, nem desconcerto, nem a obsessão maluca que tinha, tudo se foi. Tocar o Alex foi estranho, de um jeito bom para mim, pois conclui que estava me libertando do amor platônico que sentia por ele. Isso é um excelente começo.
Paro o carro na porta da garagem. Entro dentro de casa, e o silêncio é intrigante. Ando até a cozinha e nossa cozinheira está terminado de limpar o balcão. Ela é branca e tem cabelos loiros, é uma senhora de uns cinquenta anos. Vira-se para falar comigo e avisa que minha mãe saiu para um encontro do clube do livro que ela participa com as amigas, avisa que meu pai e minha irmã ainda não voltaram de seus respectivos trabalhos.
— Obrigado por avisar, Jacira — digo saindo da cozinha.
Subo direto para meu quarto, jogo a bolsa em cima da cama, tiro a camisa ficando só de calça jeans e ligo o notebook. Não sei o motivo, mas estou curioso por saber mais sobre o tal Enrico que todos falam. Clico no navegador e a página inicial de pesquisa abre. Digito o nome dele: Enrico German e clico em imagens. Arregalo os olhos.
Várias imagens dele sem camisa, ou só de sunga, ou só de calça. Imagens de propagandas de roupas esportivas. Estou impressionado com o tamanho do portfólio desse cara. Clico em vídeos, e um Uau! Sem som sai da minha boca. O canal de vídeos dele tem mais de dois milhões de seguidores. Segurei o queixo, literalmente. Começo a fuçar sobre sua história e não tem muita coisa, o mais polêmico é que ele já fez vídeos pornôs. Só que uma reportagem me chama atenção. Em um site popular de notícias, existe a seguinte manchete: “Juan Marco German, milionário no ramo das telecomunicações, encontra seu herdeiro perdido” e junto tem fotos do Enrico e do Juan Marco. Lembro de algumas pessoas falando sobre essa história. Empresas ficaram à beira de colapso quando essa notícia veio à tona. Sem conseguir conter a curiosidade, vasculho essa história por vários sites e cada um tem uma manchete diferente falando da mesma história. Tem até relatos que o Enrico era garoto de programa antes de reencontrar seu pai. Isso sim é novidade.
— Quem diria, hein Enrico Almofadinha? Garoto de programa! — penso em voz alta passando as imagens no computador.
Não posso negar, ele um cara muito bonito. Seus olhos azuis encantam. Rosto marcante, sorriso doce e contagiante. Cada traço seu exala sedução. As fotos da internet são das mais variadas. Tem Enrico usando terno e gravata, e a elegância com essas roupas é fascinante. As fotos de sunga são as melhores, pernas grossas. As de roupas de academia também, mostram quase tudo dele. Braços grandes, grosso... estou babando em cada foto que vejo.
Abro a imagem onde Enrico está usando uma sunga azul com cordões soltos, e fico admirando cada pedaço do seu corpo. Mordo o lábio, e engulo a saliva, pois a boca está inundada só em ver essa imagem. Recosto-me na cadeira e perco a noção de tempo olhando para a foto. Não sei quantos minutos foram que passei olhando a foto, até que sou puxado para a realidade.
Minha irmã está do meu lado, ela toca meu ombro e diz:
— Quem é esse? — puxa um pufe e senta-se ao meu lado.
Até que enfim, uma pessoa que não conhece o Enrico.
— É um cara que conheci... Quer dizer, ele apareceu na faculdade, dias atrás, para dar uma palestra — digo colocando as mãos atrás da cabeça.
— E ele chamou a atenção de todos, acertei?
Digo que sim com a cabeça. Levanto-me da cadeira e me jogo na cama. Amanda me segue, mas puxa a cadeira que eu estava sentado, ela estica as pernas na ponta da cama.
— Você sempre soube, né verdade? — digo fechando os olhos.
— Estamos tendo aquela conversa que eu disse que poderíamos ter? — Ela sorri.
— Sim.
— Diego, só um cego para não perceber que você é gay — diz desabotoando o blazer preto. — Aquela sua obsessão pelo Alex te entregava, dava muito na cara, mas quem teria coragem de falar alguma coisa? Ninguém. Nosso pai daria o maior chilique.
Nessa parte sou obrigado a concordar, se nosso pai soubesse ou suspeitasse de algo o inferno se instauraria nessa casa. Preferi viver no meu inferno particular, sofrer sozinho, foi meu erro.
— Eu encontrei com o Alex — digo quase sussurrando.
— Nossa! E como foi? — franze o cenho. — Você não foi grosso com ele, foi?
— Claro que não, Amanda. Por que eu seria grosso com ele?
— Por que você é o Diego que sempre conseguiu tudo, e sempre foi estupido com todo mundo.
Acabo de levar um soco na boca do estômago. Minha irmã sabe ser tão direta e sincera, que até me assusto.
— Estou mudando, mana. Espero conseguir.
Ele bate palmas parecendo uma foca feliz.
— Dieguinho! É assim que se fala. Estou feliz que tenha acordado para a vida.
— Eu não dou tão na cara assim, dou? — digo me sentando na cama.
— Hum! Deixe-me pensar — diz com a mão no queixo. — Para nossos pais não. — Amanda se levanta, pega seu blazer e diz: — Preciso ir, quero tomar um banho e por meus pés na água morna. — Ela anda até a porta e antes de sair do meu quarto, pontua: — Aconteça o que acontecer, estou junto com você nessa — solta um beijo e sai.

Fico só, organizando meus pensamentos. A minha aceitação foi um grande desafio, pois a ficha começou a cair quando vi minha mãe vivendo uma mentira, um casamento infeliz. Eu não quero viver assim, eu não quero isso para mim, é como se não estivesse vivendo de verdade. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Desejo Escondido - Capítulo 04





Sou acordado com um tapa na minha bunda. Resmungo virando o rosto no travesseiro. Outro tapa, e dessa vez me viro para encarar quem me brinca de matar mosquito logo na minha bunda. É uma mulher, negra, com lábios carnudos, cabelo encaracolado com mechas loiras e um belo par de peitos. Ela se deita ao meu lado, acaricia meu rosto e me beija, eu correspondo. Ela me beija suave, com delicadeza, um beijo sedoso, mas que não me dá tesão. Afasto-a e pergunto como vim parar ali.
— Não lembra?
Balanço a cabeça em negativo.
— Uau! Então a cachaça que você tomou foi forte. — Ela diz se levantando.
— Como assim? — bocejo e sinto o cheiro do meu hálito. Puro álcool.
— Vou refrescar sua memória...
Sento-me na cama e cubro minha nudez com o lençol vermelho de seda.
— Você chegou aqui, quer dizer lá embaixo no bar, bem chateado. Soltando fogo pelas ventas. Pediu a melhor água ardente que temos, e foi atendido. Depois você ficou tão bêbado que começou a cantar as meninas do lugar. Repetia a frase: eu não sou viado. Com a voz embolada por conta das muitas doses de cachaça. Nenhuma de nossas garotas quis ficar com você.
— Garotas? Isso é um puteiro? — franzo o cenho.
Ela ri de um jeito jocoso e continua a falar:
— Sim. Mas, é um puteiro de respeito, somos as melhores dessa região — diz vestindo seu hobby de estampa de onça.
— Que região? — esfrego os olhos ainda embaçados.
— Ora essa! Como assim que região? Estamos nos limites da cidade, meu lindinho.
— Puta merda! — digo tapando os olhos e jogando a cabeça para trás. — Preciso ir embora.
Levanto-me da cama, e pego minha cueca que está em cima do criado mudo e me visto. Enfio minhas pernas na calça, rapidamente visto a camisa polo e pego nas mãos meus pertences que estavam espalhados pelo quarto de cor vermelha e preta.
— Onde pensa que vai? — A puta diz cruzando os braços. — Ainda não recebi pelo serviço — mira o olhar em direção ao meio das minhas pernas e diz: — E que serviço, você é uma delícia e precisa ficar bêbado mais vezes.
Meneio a cabeça em negativo sem entender o que ela quis dizer com essa observação. Não preciso ficar bêbado para transar... quer dizer, preciso de algo forte para estar na cama com uma mulher.
— Tá aqui sua grana.
Abro minha carteira que estava no bolso de trás da calça, e jogo na cama seis notas de cem reais.
Sou caridoso com essas prostitutas, foi o que o canalha do meu pai ensinou quando me levou a um puteiro ainda adolescente.
— Nossa! — diz languida contando o dinheiro. — Aparece aqui mais vezes — solta um beijinho.
Saio do quarto e desço as escadas do lugar até o andar de baixo onde fica o bar. É um lugar rústico, e lembra os bares do faroeste, mas sem aquela porta esquisita que abre pelo meio. Algumas meninas me olham, e dou sorriso tentando ser educado. Despeço-me de quem acho ser o dono do lugar. Com os sapatos ainda nas mãos, abro a porta do lugar e dou de cara com o meu carro sendo arranhado por três moleques cheira cola.
— Seus filhos da puta! — grito e eles saem correndo para longe.
Meu carro levou dois arranhões, um de cada lado. Sinto tanta raiva que dou chutes no carro e ainda bato com força no teto. Encaro minha BMW azul metálica e não consigo acreditar que vim parar quase fora da cidade, em um lugar barra pesada, dentro de um puteiro malcheiroso.
O que me falta acontecer? Tomar um banho de água suja da rua?
Olho para os lados e vejo que não vem nenhum veículo, pois tem uma poça de água suja bem do lado do meu carro. Entro de uma vez e dou partida. O quanto antes sumir desse lugar, melhor para minha segurança e saúde.
####
Volto para casa depois de passar a noite fora. Subo a escada, na ponta dos pés para não fazer o mínimo de ruído, em direção ao meu quarto. Não quero ser pego com a bunda de fora, metaforicamente falando. Abro a porta do meu quarto, ascendo a luz e tomo um susto. Vejo minha irmã sentada na beira da minha cama, com as pernas cruzada como se estivesse atendendo algum de seus pacientes.
— Que susto do caralho, Amanda — solto o ar preso nos pulmões.
— Irmão, você deu mancada.
— Eu sei Amanda, eu sei. Mas eu precisava espairecer, sei lá. Estava ficando sufocado — digo me sentando ao seu lado e tirando a camisa.
— Onde passou a noite? E não diga que foi na casa dos gêmeos, pois sei que não foi. A mamãe ficou preocupada com você. Por Deus, Diego! — diz colocando a mão no meu ombro.
Respiro fundo e me deito na cama com as mãos na cabeça.
— Sabe, mana. Você é única pessoa que não me julga.
— Nunca te julgaria. Além do mais, você é meu irmão caçula e eu te amo, mesmo você sendo um chato.
Gargalho com a reação sincera da minha irmã.
— Eu descobri ontem que o Joseph e o Kauã são gays, e que eles se pegam.
Ela me olha de um jeito indiferente com o que acabei de revelar. Como isso fosse uma coisa normal e totalmente aceitável, para ela deve ser eu acho. Ela é psicóloga e deve receber alguns caras com crises de aceitação.
— Hum! E daí? Isso afetou você? A amizade de vocês?
Não respondo nada, pois não sei como me sinto de verdade, ainda não processei essa informação. E não estamos numa consulta, mas ela sempre tenta puxar tudo de mim para que eu me abrir, eu gosto, pois é com ela que consigo desabafar tudo que sinto.
— Diego...
— Eu senti inveja. Eu acho — tamborilo os dedos na minha barriga.
— Por que eles estão se pegando? — ela arqueia sobrancelha.
— Não, não por isso — sento-me ao seu lado novamente. — Senti inveja da coragem deles em se assumirem na frente de praticamente de toda faculdade e no meio de uma festa. Todos acham que somos os caras que nunca seriam gays. O Joseph e o Kauã não têm jeito de gays, você já viu como eles são? Eles não têm caras de gays.
Ela balança a cabeça em positivo, com os olhos repletos de compreensão me encarando. Dá sinal para que eu conte tudo que estou sentido.
— Então, Amanda — continuo. — Como pode eles serem gays, se nem jeito para isso eles tem?
— Irmãozinho — diz pousando a mão na minha coxa. — Não é preciso ter jeito de gay para ser gay. Porque gay não tem jeito, eles são o que são. Não existe isso. Então quer dizer que é gay só aqueles que se montam, que se vestem de mulher e saem fazendo performance? Aqueles que pintam e cabelo colorido e falam: ‘mana, o bofe é um arraso’ — imita um gay afeminado. — Você acha que é isso?
— Sim, acho — digo num fio de voz.
— Pois trate de rever seus conceitos, meu irmão — bate na minha coxa e sorri de lado. — Seus amigos se gostam e isso é o que importa. Já parou para pensar no quão difícil pode estar sendo para os dois nesse momento?
— Não. Nem faço ideia — encolho os ombros.
De fato, não faço ideia de como está sendo a reação dos outros e os comentários na faculdade. Não faço ideia de como eles irão encarar a reação das famílias, o pai do Kauã seria capaz de expulsa-lo de casa. Não faço ideia de nada.
— Vocês são amigos de longa data, sempre se deram bem. Acredito que eles, pensaram que você seria o não julgaria a situação, mas não foi isso que aconteceu, não é? — balanço a cabeça em negativo. —  Vai ver, eles estão precisando dos amigos nessa hora.
Ela se levanta da cama e antes de sair do quarto, se vira para mim e completa:
— Diego. Quero que saiba que, sou sua irmã e sempre vou te amar, não importa a decisão que tome, vou te apoiar sempre — dá uma piscadinha e fecha a porta.
Minha irmã tem um jeito todo especial de trabalhar com seus pacientes, mas eu não sou paciente dela. Penso que ela já saiba, antes mesmo de mim, o que sinto em não conseguir me assumir para todos, nem para mim mesmo. Se ela diz que me apoia, quem sabe um dia eu não criarei coragem para sair de uma vez por todas do armário.
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Meu celular toca, já são oito da noite, e é o Luís. Com certeza ele deve estar sem entender nada até agora. Atendo.
— Fala mané!
— Mano, onde você se enfiou o dia todo? Te liguei várias vezes, liguei para sua casa. Ia até começar uma investigação estilo CIS para saber onde te encontrar.
Sorrio com o jeito do Luís. Ele sempre tem as melhores saídas para situações como essa, e as mais idiotas respostas também.
— Quis dar um tempo, só isso — bocejo, relaxando meu corpo na cadeira de frente para o computador.
— Quer conversar? Sabe que tu é meu brother, chefe da matilha.
Não sou chefe nem da minha cabeça.
— Para com essa de chefe da matilha. Não somos nada.
— Somos sim! Os lobos. Os mais populares! As garotas nos veneram, sabia?
Sorrio. Só esse louco para tirar um sorriso depois de tudo.
— De onde você tirou isso? — ajeito-me na cadeira. — Depois de ontem, duvido sermos alguma.
— Ah, meu amigo! A descoberta da gayzisse do Joseph e do Kauã, nos deixaram mais populares. Assim, nem todos nos veem com bons olhos, mas viva a diversidade, meu amigo!
Acho que ele bateu forte com a cabeça.
— Você tá bêbado? Drogado? Cara, já mandei você parar de fumar aquela coisa estragada.
— Mano, as gatinhas estão chegando junto, pois querem ser amigas dos viados. Sobra mais mulher para gente. Já pensou nisso?
— E você já pensou que a Suelen vai descobrir tuas puladas de cerca e chutar tua bunda branca para bem longe?
— Para, vai! Esquece sua prima.
Era só o que faltava! Os gays da turma virarem atração da mulherada. O que elas querem? Conselho sobre que vestido usar na festa de formatura? Faça-me o favor!
— Tchau Luís. Vou dormir, minha cabeça está quase explodindo e amanhã nos falamos.
— Beleza, então! Fui! — Ele desliga.
Jogo o celular em cima da mesa do computador e me deito na cama. Estou só de cueca samba-canção. Fecho os olhos para tentar dormir. Será que quando eu acordar, tudo terá voltado para o seu lugar? Como seria bom se fosse assim.
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Acordo cedo e decido passar na academia antes de ir para faculdade, faz dias que não ponho os pés naquele lugar. Passei a noite toda pensando em tudo que aconteceu. O meu mal humor insuportável, o Joseph e o Kauã se assumindo em público. E eu, o que fiz de diferente, além de ficar remoendo o que aconteceu a um ano? Nada, não fiz nada.
Coloco a bicicleta presa na barra de ferro que fica na frente da academia, todos alunos que vem de bicicleta colocam ali. Eu decidi deixar o carro em casa, já que academia fica no bairro onde moro. Um pouco de exercício, liberar endorfina e me ajuda a acalmar as ideias. Sempre que estou extremamente estressado, venho aqui para pensar enquanto fico ensopado de suor e com os músculos doloridos.
Passo pela catraca e sigo para esteira, faço um alongamento rápido antes de começar a correr um pouco. Coloco os fones de ouvido e ouço Lithium do Nirvana. Fixo meu olhar, enquanto corro, no parque arborizado a minha frente. Pelo vidro da sala tenho uma bela visão do lugar. Pessoas fazendo caminhada ao ar livre, idosos conversando e tem algumas até que tricotam. Inspiro o ar tão profundo, que me imagino correndo entre as árvores do parque. Estou tão concertado na imagem e na minha corrida, que não percebo quem está ao meu lado, mas sei que tem alguém correndo na esteira do lado. Olho de soslaio e vejo ombros largos, de um cara de quase 2 metros. É o Joseph.
Ele está de cabelo preso, usa uma camisa regata azul e short preto, a tatuagem, de um dragão, que tem no ombro fica visível. Ele não me olha, deve estar chateado, com certeza está chateado. Volto a me concentrar na imagem do parque. Noto que ele tira os fones de ouvido, e eu acabo fazendo o mesmo. Minutos depois, ele desliga a esteira, desce e fica do minha frente de braços cruzados. O encaro de volta. Seus olhos me fuzilam. Com uma tapa forte, ele bate no botão e desliga minha esteira.
— Tá maluco? — digo descendo da esteira.
— Precisamos conversar — diz de cara fechada.
Meneio a cabeça em negativo, pego do chão, ao lado da esteira, minha coqueteleira com isotônico. Bebo e depois encaro o Joseph.
— O que foi dessa vez? — digo já sabendo qual o assunto.
— Sem essa, Diego. Somos amigos, certo? — sua voz grossa, troveja pela sala e algumas pessoas nos olham.
Balanço a cabeça em sinal de positivo. Depois de tudo ele ainda me considera seu amigo, e na verdade, fico aliviado em saber disso, e também muito feliz por não ter perdido meu melhor amigo depois da minha atitude idiota.
— Se somos amigos, então por que tratou a mim e ao Kauã daquele jeito na festa? Por que?
Enxugo o suor da testa com o antebraço e não falo nada.
— Responde, Diego — diz ele se aproximando.
Seu peito arfando em cima dos braços cruzados. Juro que estou com medo dele me dar um soco se eu falar alguma besteira. Bebo mais um pouco do isotônico e o encaro.
— Você pode pegar quem quiser. Isso não é da minha conta...
— Ah, não é? — sorri de lado com ironia.
— Não — falo sucinto.
— E por que deu aquele show na festa? E não diga que estava bêbado, pois não estava.
Respiro fundo me aproximo do Joseph e estando bem perto dele digo:
— Foi estranho para mim ver os meus melhores amigos se beijando na frente de todos. Sempre fomos os caras mais desejáveis pelas as garotas e... Eu tive inveja da coragem de vocês — digo de uma vez.
Começo a perceber que chegou a hora de colocar para fora tudo que sinto, e o cara que está de pé na minha frente é um dos meus melhores amigos. Ele seria a última pessoa no mundo que me julgaria, mas eu o julguei, e talvez não mereça sua amizade.
— Diego, eu sei o que aconteceu lá no litoral, com aquele lance do Alex...
— Eu não tenho essa coragem. Eu sou um merda — digo olhando para o chão.
Encosto na esteira. Ele se aproxima e também encosta ficando ao meu lado.
— Sabe, eu também não tinha coragem — diz olhando para seus pés.
— E quando ela apareceu? Na noite da festa?
Nós dois estamos com a cabeça abaixada olhando para nossos tênis.
— Sim. Naquela noite — respira fundo.
A academia não está muito cheia, e as poucas pessoas que tinha na área das esteiras, coincidentemente saíram nós deixando a sós, então sinto-me a vontade para conversar com ele.
— Ver o Kauã sendo agredido por você, logo por você, nosso melhor amigo, foi o impulso que eu precisava para assumir de uma vez o que sinto por ele, e ele por mim. Ver a pessoa que você ama levar um soco só porque falou a verdade e não fazer nada a respeito, é ter muito sangue de barata e eu não tenho. Você me conhece e sabe o que sou capaz de fazer para defender aquilo que amo.
Sabe aquela inveja que falei? Pois é, está ficando maior depois de ouvir isso.
— Eu sempre desconfiei que existia algo entre vocês dois. Faz muito tempo.
Dizem, que o sexto sentido não é privilégio só das mulheres. Todos os homens não têm, com certeza, é só olhar os gêmeos para saber que mal eles usam os cinco, que dirá seis. Mas, depois que voltei do litoral, a um ano atrás, e que todos ficaram sabendo o que aconteceu, percebi que os dois, Joseph e Kauã, passaram a agir como se não se importassem com quem poderia descobrir sobre eles, contudo, acho que meu sexto sentido foi mais rápido. Foi complicado para mim desconfiar deles, e está sendo mais que complicado aceitar que essa desconfiança é real.
— O garanhão da turma. O líder da matilha. O grande Diego Souza Leão — diz Joseph fazendo um alto-falante com as mãos. — Sempre admirei você. Sempre quis ser como você era quando começamos a estudar na faculdade. Lembra do dia que nos conhecemos?
Sorrio ao lembrar da cena. Foi engraçado, pois o Joseph não tinha cabelo tão grande. Sempre foi altão, mas não tão forte como agora e usava óculos, era ridículo. Estávamos na fila da matrícula quando ele chegou pedindo informação, e sua voz grossa, grave fez com que várias meninas da fila virassem seus pescoços para olhá-lo. E desde então ele ficou popular pela voz de trovão. Ficou conhecido pelo apelido de “Lobo Trovão”, outros chamam ele agora de “Thor” por conta do cabelão loiro. Naquele dia eu ganhei um grande amigo.
— Claro que lembro. Lobo Trovão — sorrio.
— “Essa é a fila da matrícula?” — diz imitando o jeito tímido que fez naquele dia.
Gargalhamos. Como fazia tempo que não sentia isso, que não tinha isso. Uma conversa franca com um amigo. Eu fui um tolo arrogante.
— Eu te admiro, Joseph, sempre te admirei, mas por ser imaturo, arrogante e mimado, nunca admiti isso nem para mim — digo apertando seu ombro.
Ele sorri de lado e fala:
— Sabia que estamos sendo zoados, esculachados e viramos piadas na faculdade? É meu amigo, nossa vida não será fácil daqui para frente.
— Mas o Luís disse que as garotas nos adoram...
Ele gargalha.
— Aquele brisado é um idiota — se vira para mim. — Duas garotas vieram me perguntar se eu podia acompanha-las para escolher o vestido de formatura e ele viu uma brecha para conquistar as meninas. É um pervertido! — sorri.
— Sério que elas te chamaram para isso? Puta que pariu! — gargalho.
— Sim, é sério. Para boa parte das mulheres todo gay entende de moda, cabelo e do mundo fashion. Tenho cara de blogueiro de moda? — franze o cenho.
— Nem cara de gay de você tem — continuo rindo.
— Gay não tem cara, Diego — torce a boca.
Não consigo parar de rir, e o Joseph começa a gargalhar junto comigo. O que pensei sobre o fato das mulheres nos adorarem, segundo a teoria do Luís, estava certo. Elas acham que todo gay é um poodle mini que dá para pôr na bolsa de grife.
— Brou! — digo me recompondo das risadas. — Vou começar a me aceitar — respiro fundo.
— Bom começo, amigo — aperta meu ombro.

Ele me encara, sorri e me chama para o abraço. Somos amigos, e quero que essa amizade dure por muito tempo. O primeiro passo eu dei, tentar me aceitar, respeitar o que sou e tentar ser uma pessoa melhor.